Criadora da Cordelteca Itinerante, Aurineide Alencar leva mais de 3 mil km de história e devoção até evento em Pernambuco
A trajetória da cordelista Aurineide Alencar, que saiu de Dourados rumo ao Nordeste, ganhou um capítulo simbólico antes mesmo de chegar ao destino final. Em um percurso superior a 3 mil quilômetros, ela fez questão de passar por Juazeiro do Norte para agradecer ao Padre Cícero, figura central da fé popular e referência constante na literatura de cordel. Após a parada, a viagem segue por cerca de 180 quilômetros até Serra Talhada.
Conhecido como “Padim Ciço”, Padre Cícero é um dos maiores símbolos religiosos do Nordeste e responsável por transformar Juazeiro do Norte em um dos principais polos de peregrinação do país. Sua influência atravessa gerações, inspirando manifestações culturais, incluindo o próprio cordel — universo no qual Aurineide construiu sua identidade artística.
Para a cordelista, a visita teve um significado além do trajeto físico. “Era um momento necessário, de gratidão. Minha fé sempre caminhou junto com o cordel”, relata. Segundo ela, a devoção acompanha sua vida desde a infância e está diretamente ligada à forma como enxerga a arte popular.
O destino da viagem é o XIV Festival Vamos Fazer Poesia, realizado nos dias 25 e 26 de abril no Sesc de Serra Talhada. O evento reúne artistas de várias regiões e é reconhecido nacionalmente por valorizar a poesia popular e a tradição nordestina. A organização é assinada pelos produtores culturais Iranildo Marques e Evânia Marques.
Nesta edição, Aurineide participa presencialmente pela primeira vez — e com destaque. Ela será homenageada pelo trabalho desenvolvido em Mato Grosso do Sul à frente da Cordelteca Itinerante Cantinho do Cordel, projeto que leva livros e apresentações a diferentes comunidades. “Sempre acompanhei à distância, agora vou viver esse momento de perto”, afirma.
A ligação com o cordel começou ainda na infância, em um ambiente onde a tradição fazia parte do cotidiano. “Cresci ouvindo versos, vendo repentistas. Era algo natural”, relembra. Mais tarde, já como professora, transformou essa vivência em ferramenta pedagógica, utilizando rimas para facilitar o aprendizado dos alunos.
Radicada em Dourados desde a década de 1990, a artista paraibana ajudou a fortalecer a presença do cordel na região Centro-Oeste. Em 2019, deu um passo além ao criar a Cordelteca Itinerante — uma Kombi adaptada que funciona como biblioteca móvel, reunindo mais de três mil títulos e circulando por escolas, praças e eventos culturais.
Reconhecida como biblioteca comunitária e integrada ao Sistema Nacional de Bibliotecas, a iniciativa amplia o acesso à leitura e mantém viva uma das expressões mais tradicionais da cultura brasileira.
“Cordel é leveza. É algo que acalma, que ensina e aproxima as pessoas”, resume a artista, que segue viagem levando na bagagem versos, histórias e uma trajetória marcada pela união entre fé, cultura e estrada.
Serviço
O XIV Festival Vamos Fazer Poesia terá transmissão ao vivo pelo canal “TV Poesia da Gente” no YouTube: https://www.youtube.com/@tvpoesiadagente2340