“Seo Zé faz dois cachorros-quentes aí pra levar!”, “Seo Zé faz um sanduíche rapidinho pra mim!”, “Seu Zé uma água mineral, por favor!”...é assim o dia inteiro na perua do cachorro quente do “Seo Zé”. São clientes da caminhada, clientes que passam de carro e só sinalizam com a mão ou chamam para ser atendido no veículo. Outros são alunos do Colégio Imaculada Conceição; têm também os ex-alunos, que já se tornam adultos e hoje fazem faculdade ou já são “doutores”, como diz o idoso José Teixeira da Silva, de 80 anos, que há 46 anos vende doces e cachorros-quentes em frente ao Colégio Imaculada Conceição. “Alguns dos clientes conheci quando criança, mas foram estudar fora e quando voltaram, já ‘barbudos’, não conheci mais, mas eles me conheceram”, conta o idoso bem humorado.
Seo Zé só lamenta os tempos difíceis em que vivemos atualmente por conta da economia brasileira, que piorou muito. Primeiro por causa da pandemia e agora até a guerra na Ucrânia, que está afetando o preço dos combustíveis e que fez encarecer tudo, até seu lanche que hoje custa 10,00 a unidade. Faz o molho e as misturas em casa e, na perua, só monta os sanduíches para a clientela em questão de segundos. “Aqui não tem enrolação e não uso outros molhos, só o tradicional mesmo”, completa. Realmente, o lanche do Seo Zé é bastante saboroso, o que atrai a clientela há anos.
Bons tempos
Seo Zé conta que já viveu bons tempos na venda de cachorro-quente e doces, lembra que antes da crise vendia até 150 sanduíches por dia, hoje não chega vender nem a metade. «Caíram muito as vendas, mas não penso em sair deste ponto, talvez ampliar o negócio, abrindo outro ponto, o que não pode é desanimar”, encoraja ele.
Além dele, o idoso conta com a ajuda do filho, chamado de “Marcão” para ajudar na correria dos negócios do lanche. Seo Zé sente orgulho em falar que criou os três filhos com o dinheiro que ganhou na profissão de ambulante e adquiriu a casa própria nos anos 80, na Vila Amaral, praticamente no centro da cidade, perto do residencial Wladomiro do Amaral.
Ele lembra que chegou em Dourados em 1976 com a cara e coragem, não conhecia ninguém. Pernambucano de nascimento, tem a feição de japonês, mas ele afirma que não tem nenhum parentesco oriental. Ele conta que antes de mudar para Dourados residia na cidade de Irapuru em São Paulo, onde morava a família da esposa. “Cheguei em Dourados com cara e coragem, a esposa e três filhos pequenos, sem ter onde morar e não conhecia ninguém, mas com muita vontade de trabalhar”, lembra.
Seo Zé recorda que comprou fiado umas tábuas e construiu um “barraco” na Vila Rosa, onde acomodou a família assim que chegou na cidade. Neste período ele conheceu um senhor que ofereceu ajuda à família, e foi aí que adquiriu o primeiro carrinho para vender docinhos de criança. Procurou os melhores pontos da cidade e foi parar no “Colégio das Irmãs”, como era chamado antigamente, o Colégio Imaculada Conceição. “Tinha outros ambulantes no local, mas pesquisei o que os outros vendiam pra não vender igual, queria fazer a diferença”, conta.
Ele lembra que durante anos trabalhou vendendo docinhos no portão principal do Colégio Imaculada Conceição, na Rua Ponta Porã. Como tinha outros vendedores de cachorro-quente, não queria interferir. Mas mesmo assim Seo Zé disse ter ganhado muito dinheiro vendendo docinhos no portão da escola. Em 1.997, como os vendedores de cachorro-quente se afastaram do local, ele passou a vender o lanche e doces, também mudou o ponto para outro portão da escola, na Rua Firmino Vieira de Matos, na qual se encontra hoje.
Ele diz que só parou de vender os docinhos quando iniciou a pandemia, porque as aulas na escola foram suspensas, as crianças sumiram, então teve que parar. Hoje só está com o cachorro-quente, que vende numa perua que comprou nova com recursos próprios há alguns anos. Teve uma época que ele vendeu muito cachorro-quente nos finais de semana na feira livre, quando era na rua Cuiabá, mas a feira foi transferida e ele parou com o negócio no local.
Hoje Seo Zé só quer lembrar os bons tempos nos quais pode criar os filhos com todo conforto e comprar a casa própria. “Vivi uma época tão boa que pude adquirir um fusca para cada filho, imagine só?”, lembra o idoso. Apesar dos filhos não quererem estudar muito, todos sempre tiveram bons empregos. Um filho morreu anos atrás, mas o trabalho e os três netos fizeram com que seo Zé e a esposa adquirissem forças para suportar a dor. “Foram bons tempos, onde pude criar meus filhos, comprar alguns imóveis, viver bem. Hoje não está bom, reconheço, mas a coragem para trabalhar não morreu, ainda tenho muitos planos”, afirma o idoso.
Por: Marli Lange/ Especial para o PROGRESSO