O clima voltou a ficar tenso nesta quarta-feira (13) na região de sítios vizinhos a aldeia Bororó em Dourados. Moradores do local e trabalhadores de empresas voltaram a ter veículos apedrejados. O problema tem sido recorrente nas últimas semanas.
Enquanto era realizada a primeira reunião da Frente parlamentar sobre conflitos envolvendo indígenas e sitiantes, na manhã de hoje, na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Dourado-Itaporã), a tensão se voltou à área.
Um trabalhador gravou vídeo do caminhão que dirigia, atingido por tijolo. O para-brisa quebrou.
Sitiantes moradores no local entraram em contato com a reportagem para relatar a insegurança. "É pedra e bomba e alguns deles estão com espingarda", relatou um morador que preferiu anonimato.
A reunião
A reunião na OAB é uma proposição da Câmara Municipal por meio da Frente Parlamentar composta pelos vereadores Rogério Yuri/PSDB (presidente), Fabio Luis/Republicanos (secretário), Elias Ishy/PT (membro) e Marcelo Mourão/Pode (membro). Várias lideranças da segurança pública estiveram presentes, como o secretário estadual de segurança pública, Carlos Videira.

OAB sediou a primeira reunião da Frente Parlamentar sobre conflitos envolvendo indígenas
Enquanto ocorria o evento, sitiantes enviavam mensagens de "pedido de ajuda". O primeiro escalão da Polícia Militar, da Polícia Civil, do DOF e da Guarda Municipal acompanharam a reunião, bem como representantes da Polícia Federal.
Embora o conflito seja emblemático e se arrasta desde 2014, nenhuma solução foi apontada até hoje para resolver o problema.
A coordenadora da Funai em Dourados, Teodora de Souza Guarani, também esteve presente na reunião, e disse à reportagem que a sociedade e as autoridades não podem fechar os olhos para o que está acontecendo. "É preciso discutir essa situação territorial e cultural. É preciso buscar uma solução", afirmou.
Diante do conflito que parece não ter fim, pequenos sitiantes têm falado sobre a venda das terras ao governo para ser repassada aos indígenas, contudo, o governo federal não tem mencionado nenhum projeto nesse sentido. Mas a ideia, segundo Teodora, em parte resolveria o problema diante da super população indígena.
"Quando criaram as oito reservas indígenas em Mato Grosso do Sul, não se pensou que a população poderia crescer. Isso aconteceu, a população cresceu e a Constituição não tem tratado sobre a demarcação de terras", destacou.
Embora uma solução para o impasse esteja longe, o secretário de segurança pública estadual, Carlos Videira, também defende a necessidade de encontrar uma saída. “Temos que estar atentos não só à disputa pela terra, mas à vulnerabilidade dessas populações. Nossas aldeias estão sendo utilizadas por facções criminosas para levar drogas para os grandes centros”, relatou Videira na reunião.
“Temos muitos indígenas indo colher maçãs em Santa Catarina e no Rio Grande Sul. Isso é importante. Mas nós temos muitos jovens indígenas que estão indo trabalhar nas roças de maconha. E lá eles recebem em guarani ou em real, mas também recebem em haxixe e maconha. Ele vende dentro da sua aldeia ou da mais próxima e vai levando de aldeia em aldeia”, denunciou o secretário.
A fala do secretário vai ao encontro à tentativa de homicídio sofrida pela liderança indígena Ramão Fernandes. Isso motivou, inclusive, o bloqueio da MS-156 na manhã de hoje. Os indígenas pedem a presença da segurança pública dentre das aldeias Jaguapiru e Bororó. Juntas possuem cerca de 20 mil indígenas, população maior que muitos municípios do Estado.
Ramão teve a casa cercada por um grupo que chegou no local com facão e arma de fogo. Dois tiros foram disparados contra ele, mas nenhum acertou.