Os ambientalistas e a comunidade em geral de Dourados celebram o Dia da Árvore, que transcorre nesta quinta, 21, "de olho" no Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), criado pelo decreto n° 3.045 e em fase de implantação pela Prefeitura desde 2020. O PDAU prevê o plantio de 22.337 mudas e supressão/remoção com replantio de 163 tocos e 293 árvores.
O Plano, que leva a chancela da Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura (Fapec), é uma espécie de “Plano Verde” e visa corrigir vários problemas detectados após amplo estudo, como por exemplo o fato de apesar de forma geral ter de boa cobertura arbórea, a cidade ainda possui déficit de área verde de 22,3 mil árvores. Alguns bairros quase não possuem árvores em suas calçadas, num clima quase desértico, causando um grande desconforto térmico em dias quentes muito frequentes no município. Se o déficit de árvores virou problema com a expansão crescente do perímetro urbano, as quedas de árvores com vida útil comprometida são constantes e danificam patrimônios públicos e privados, afora o transtorno ao transito até a retirada dos troncos e galhos quando caídos em vias públicas e o comprometimento da rede de distribuição de energia elétrica, que sofre graves danos, ocasionando interrupção do fornecimento em regiões inteiras da cidade.
Para comentar sobre o PDAU e algumas preocupações dos ambientalistas, como efeitos da "importação" de espécies não nativas, o acompanhamento técnico do Plano e seu cumprimento na integra, dentre outros, e traçar um panorama da arborização da cidade, o Progresso entrevistou o geógrafo Mario Cesar Tompes, que na condição de primeiro presidente do hoje Instituto Municipal de Meio Ambiente-Imam, à época Instituto Municipal de Planejamento e Meio Ambiente (Iplan), conhece de perto o sistema de arborização da cidade, que data da gestão do então prefeito José Elias Moreira(In Memorian).
"A utilização de espécies nativas é sempre mais recomendável. As espécies exóticas devem ser utilizadas com parcimônia.Veja-se o problema que estamos enfrentando com as leucemas hoje em Dourados. A espécie encontrou condições favoráveis e transformou-se em uma verdadeira praga que elimina a vegetação em seu entorno e cria uma espéciede "deserto verde" onde só ela se faz presente", ponderou o geógrafo. "Outro problema das espécies exóticas, como as palmeiras, é a maneira em que a plantamos em Dourados. Plantamos grande quantidades em um mesmo lugar, criamos uma vegetação homogênea sem diversificação. A concentração de uma única espécie em um mesmo local atrai pragas. O ideal é diversificar a vegetação na cidade para evitar o risco de atrair pragas", prosseguiu. Aqui, um detalhe: o PDAU incluiu a palmeira como "espécie não recomendada", mas é largamente plantada em loteamentos urbanos, que de acordo com o decreto n° 3.045 são co-participes na implantação do Plano.
"Essa homogeneização de espécies também ocorre hoje em Dourados com espécies nativas, como o oiticeiro. Ele se tornou bastante popular entre a população e hoje representa, salvo engano, mais de 30% de todas as árvores plantadas em Dourados. Isso representa um desequilíbrio e grande risco para a arborização da cidade, já que uma praga ou doença que afete essa espécie poderia eliminar mais de 40% da vegetação local" , alertou Mario Cesar, referindo-se à espécie (o Oiti) predominante na cidade e que já teve seu plantio proibido.
"Outro problema é a poda radical que a população costuma realizar nas árvores urbanas, muitas vezes pelando completamente as espécies. Isso deixa as árvores fragilizadas e mais propensas às pragas e doenças. A poda inadequada também é praticada, com muita frequência, pela empresa concessionária, nas árvores situadas abaixo da rede de energia. Nesse caso além da poda exagerada que, por vezes, compromete a copa das árvores, ocorre também podas inadequadas onde se corta um dos lados da copa e não o outro, comprometendo o equilíbrio da árvore, deixando, com o tempo, a árvore inclinada, tendo sua sustentação comprometida. Essas árvores, com equilíbrio comprometido, são vítimas frequentes dos vendavais", explicou Mario Cesar.
O geógrafo concluiu a entrevista ponderando que para que a cidade tenha uma arborização urbana bem sucedida são necessários alguns ingredientes indispensáveis: "Um plano, que já possuímos, um sistema de divulgação/comunicação com a comunidade onde se possa disseminar os objetivos do plano e educar a população sobre plantio, poda correta e manutenção da arborização, um sistema eficiente de autorização sobre abate/poda de árvores e um sistema de fiscalização/ punição às eventuais infrações", elencou. "O Plano, sem esses elementos essenciais, é inócuo", disse.
O IMAM é responsável pelo planejamento das ações e a SEMSUR pela execução dos serviços relacionados ao plantio. Nos loteamentos privados, a execução fica por conta das incorporadoras. A meta de plantio de 22.337 mudas estabelecida pelo PDAU é de 10 anos.