Estudo internacional revela mecanismo inédito de fossilização que permitiu conservar tecidos moles e compostos orgânicos extremamente frágeis em fóssil da Bacia do Araripe
Um estudo internacional liderado por pesquisadores do Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos identificou um mecanismo inédito de fossilização capaz de preservar tecidos moles e até esteroides — moléculas orgânicas consideradas extremamente frágeis — em um pterossauro que viveu há mais de 100 milhões de anos e foi encontrado na Formação Romualdo, na Bacia do Araripe, no Ceará.
A descoberta, publicada no último dia 18 na revista científica iScience, mostra que bactérias oxidantes de enxofre tiveram papel fundamental na rápida mineralização do animal após sua morte. Esse processo permitiu uma preservação tridimensional excepcional do fóssil, considerada uma das mais impressionantes já registradas para répteis voadores do período Cretáceo.
A pesquisa reuniu especialistas de 15 instituições internacionais e utilizou técnicas avançadas de tomografia computadorizada, microscopia eletrônica, geoquímica isotópica e espectrometria de massa para desvendar como o fóssil foi preservado ao longo de milhões de anos.
Segundo o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a preservação encontrada é extraordinária.
“Estamos falando de tecidos e moléculas que, em condições normais, desapareceriam em poucos dias. O fato de termos acesso a esse nível de detalhe mais de 100 milhões de anos depois mostra como a Bacia do Araripe é um dos sítios fossilíferos mais importantes do planeta”, destacou.
A professora Klitin Grice, da Universidade Curtin, na Austrália, afirmou que o fóssil funciona como uma verdadeira cápsula do tempo. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram identificar vestígios de esteroides em um pterossauro, o que pode fornecer pistas importantes sobre sua alimentação.
De acordo com a cientista, as moléculas encontradas reforçam a hipótese de que esses animais consumiam peixes e lulas, ampliando o conhecimento sobre os hábitos alimentares das espécies que dominaram os céus durante a era dos dinossauros.
Os pesquisadores explicam que a fossilização ocorreu por meio de um “efeito dominó” químico. A decomposição inicial do animal criou microambientes favoráveis ao desenvolvimento de microrganismos específicos. Esses micróbios desencadearam uma sequência de precipitações minerais envolvendo sulfatos, fosfatos e carbonatos, formando uma espécie de cápsula protetora que isolou tecidos e biomoléculas antes que fossem destruídos.
Para o professor Antônio Álamo Feitosa Saraiva, da Universidade Regional do Cariri (URCA), a descoberta transforma a compreensão científica sobre a formação de fósseis excepcionais.
O exemplar estudado pertence ao grupo dos Anhangueridae, uma família de pterossauros caracterizada por grande porte e hábitos predadores. Segundo o pesquisador Renan Bantim, o animal possuía aproximadamente oito metros de envergadura, dimensão comparável à de uma pequena aeronave.
Os pterossauros foram os primeiros vertebrados a desenvolver voo ativo na história da Terra e coexistiram com os dinossauros durante milhões de anos.
Além do avanço científico, os autores destacam a importância da cooperação entre instituições brasileiras e estrangeiras. A parceria entre o Museu Nacional da UFRJ e a URCA, fortalecida pelo Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Paleovert, financiado pelo CNPq, permitiu a realização de análises de alta complexidade e colocou a pesquisa brasileira na fronteira do conhecimento sobre a vida pré-histórica.
A descoberta reforça ainda mais a relevância da Bacia do Araripe, considerada um dos mais importantes depósitos fossilíferos do mundo, famosa pela preservação excepcional de organismos que habitaram a Terra durante o período Cretáceo.