Investigação aponta uso indevido de acessos vinculados ao Pará em mensagens sobre “ataque alienígena” e “misantropia” enviadas para diversos estados
Mensagem de alerta falso enviada a celulares durante invasão ao sistema da Defesa Civil (Foto: Clara Farias)
As mensagens falsas que assustaram milhões de brasileiros durante a madrugada de sábado (20) teriam sido enviadas utilizando credenciais legítimas de dois servidores vinculados à Defesa Civil do Pará. A informação faz parte de documentos encaminhados pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil à Polícia Federal, que investiga o caso.
O episódio provocou preocupação em todo o país após uma série de alertas emergenciais aparecerem em celulares com conteúdos sem qualquer relação com desastres ou situações de risco. Entre as mensagens enviadas estavam termos como “misantropia”, “misantropo” e até referências a um suposto “ataque alienígena”.
Segundo o relatório técnico, dez disparos irregulares foram identificados entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada de sábado. Os dois primeiros ocorreram pouco antes da meia-noite. Assim que a atividade suspeita foi detectada, a equipe responsável pelo gerenciamento da plataforma bloqueou o acesso utilizado e constatou que a credencial estava vinculada a um agente estadual da Defesa Civil paraense.
Mesmo após o bloqueio inicial, novos alertas continuaram sendo enviados. Entre 1h20 e 1h23 da madrugada, outras oito mensagens foram disparadas por meio de uma segunda conta pertencente à mesma estrutura estadual, ampliando o alcance do incidente.
Um dos pontos que mais chamou a atenção dos investigadores foi o fato de os usuários possuírem autorização para atuar apenas em áreas específicas do Pará. No entanto, os alertas foram direcionados para estados e municípios fora da área de competência dessas credenciais.
De acordo com a documentação enviada à Polícia Federal, há indícios de que os responsáveis conseguiram contornar ou explorar falhas que permitiram o envio de mensagens para localidades sem autorização territorial.
Os alertas foram classificados na categoria “Extremo”, o nível mais elevado da plataforma oficial da Defesa Civil. Esse tipo de notificação é reservado para situações de grande risco, quando a população deve adotar medidas imediatas para proteger a própria vida.
As mensagens foram associadas indevidamente a eventos como alagamentos, deslizamentos e tornados, atingindo moradores de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Rio Branco. Estados inteiros, incluindo Mato Grosso do Sul, também receberam os avisos.
O incidente ocorreu na Interface de Divulgação de Alertas Públicos (IDAP), sistema operado pelo Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad) e utilizado por estados e municípios para emitir alertas oficiais à população.
Após identificar a invasão, a Defesa Civil Nacional retirou a plataforma do ar ainda durante a madrugada para evitar novos disparos indevidos e preservar as evidências necessárias à investigação.
A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar como ocorreu o acesso irregular, se houve invasão externa ou comprometimento das credenciais dos usuários e quem são os responsáveis pelos envios.
Em entrevista coletiva, o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, afirmou que milhões de pessoas foram impactadas pelos alertas. Segundo ele, dos dez disparos registrados, nove utilizaram a tecnologia de transmissão direta para celulares (cell broadcast) e um foi encaminhado por mensagem SMS.